A inteligência artificial e o paradoxo de Euclides | Opinião

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A Microsoft publicou recentemente um estudo curioso sobre a suscetibilidade das profissões à inteligência artificial. Ou seja, um levantamento sobre quais trabalhos correm maior risco de desaparecer com o avanço da IA. O estudo calculou a “cobertura da IA” em cada ocupação, isto é, a porcentagem de tarefas que poderiam ser realizadas por algoritmos generativos.

O resultado é intrigante: encanadores, lavadores de pratos e flebotomistas — enfermeiros especializados em tirar sangue — aparecem quase intocados. Apenas 6% do que fazem os flebotomistas, por exemplo, poderia ser substituído por IA (basicamente um robô para agendar a picada). Já escritores e autores surgem como uma das profissões mais ameaçadas: 85% de suas funções seriam substituíveis pelos chats ditos inteligentes.

O que parece óbvio, já que a inteligência artificial como a conhecemos é, em essência, uma máquina de linguagem — ou, segundo as más línguas, um papagaio regurgitador. A ironia é que os verdadeiros tiradores de sangue sempre foram os escritores. São eles — ou os melhores entre eles — que penetram, como vampiros, na carne do real, extraem dele o sangue vital e devolvem em forma de visão. Não colhem glóbulos, mas mundos.

Foi o que fez, para citar um exemplo de minha predileção, Tucídides (460–400 a. C.), considerado o primeiro historiador. General ateniense, viveu na pele a própria guerra que narraria em sua obra maior, a História da Guerra do Peloponeso, relato do conflito entre Atenas e Esparta.

Derrotado numa batalha, caiu em exílio, e foi desse afastamento que recolheu depoimentos, confrontou versões e filtrou exageros. Rejeitou a tradição dos poetas, que explicavam a guerra com deuses e presságios, e também a anedota fácil e a retórica de conveniência. Preferiu a checagem dos fatos, a comparação, a busca de uma verdade áspera, sobretudo, para os derrotados atenienses.

Ao reunir quase trinta anos de combates entre as duas potências do mundo grego, Tucídides não apenas relatou episódios: ele inventou a Guerra do Peloponeso como unidade histórica, transformando uma sucessão de confrontos dispersos em uma narrativa com forma e significado. Foi assim que nasceu a guerra como a conhecemos — e com ela, a própria História como disciplina crítica, despojada de mito.

No Brasil do começo do século XX, Euclides da Cunha (1866-1909) cumpriu papel semelhante. Em Os Sertões, transformou Canudos — o arraial fundado por Antônio Conselheiro, destruído em 1897 pelas tropas federais — em épico nacional, elevando a derrota de miseráveis sertanejos à altura de tragédia monumental.

Produziu, no entanto, um paradoxo cruel. O mesmo Euclides que escreveu a frase célebre “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, escreveu também, sobre o mesmo sertanejo: “O mestiço, na maioria dos casos, é um desequilibrado”. E prosseguiu, sem hesitação: “Traz o estigma da raça cruzada, em luta dentro dele, e, vivendo em clima hostil, perde os melhores dotes herdados, restando-lhe apenas os defeitos, os desequilíbrios, as taras”.

Esse é o Euclides que absorveu, sem crítica, as “verdades científicas” de sua época: a desigualdade entre raças; a “sujeira” da mistura; o determinismo do meio e da herança genética; o darwinismo social aplicado às sociedades humanas. Ideias que circulavam despudoradamente nas faculdades, nos jornais e no ambiente intelectual paulista da virada do século, impregnando até mesmo o olhar de um escritor genial.

Canudos, porém, não cabia nesse esquema. Abandonados pelo Império e pela República, os sertanejos desenvolveram uma lógica própria, calcada na experiência das mais de 500 mil mortes — e 190 mil deslocamentos — causadas pela seca assombrosa de 1877, e uma consciência mais sofisticada do que o rótulo de fanatismo ou a miopia permitiam enxergar.

Não foi por acaso que as três primeiras expedições da República foram derrotadas. Houve ali coragem, determinação — Canudos jamais se rendeu —, estratégia nas emboscadas e capacidade de administrar a surpresa e o pânico do inimigo. Foram três grandes derrotas militares. Antônio Conselheiro mesmerizou a República nascente, que custou a dizimar o arraial.

E, quando o fez, a tara não esteve nos sertanejos, mas na expedição colossal do exército brasileiro que massacrou 25 mil pessoas. Uma tara eugenista e estatal. Para ser justo com Euclides, é preciso lembrar: em Os Sertões, ele reconhece que o que se praticou em Canudos foi um crime — “uma atrocidade sem nome”.

O paradoxo de Euclides é uma advertência. Assim como ele, a inteligência artificial tende a repetir padrões e preconceitos com autoridade da técnica. O risco não é apenas dizimar escritores, como os sertanejos de Canudos. É substituir — e disseminar — a visão acrítica e a verdade pela reprodução automática e pelo estigma, travestidos de conhecimento.

O escritor é, antes de tudo, um flebotomista.

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