A inteligência artificial deixou de ser ficção científica e se tornou uma força que transforma nossa realidade cotidiana. De algoritmos que decidem o que vemos nas redes sociais a sistemas que determinam quem recebe crédito ou um emprego, a IA já está tomando decisões que afetam nossas vidas. Vale a pena, então, perguntar o que exatamente é a inteligência artificial e por que devemos compreendê-la a partir de uma perspectiva crítica comprometida com a justiça social.
O que é Inteligência Artificial?
Em termos simples, a Inteligência Artificial (IA) é um conjunto de tecnologias que permite que sistemas computacionais executem tarefas que tradicionalmente exigiriam inteligência humana, como reconhecer padrões em dados, processar linguagem e gerar conteúdo.
Essas não são máquinas que “pensam” e “entendem” como nós, mas sistemas que processam quantidades massivas de dados com os quais foram treinados para identificar padrões, gerar correlações estatísticas e fazer previsões probabilísticas.
O aprendizado de máquina permite que os sistemas aprendam com dados sem serem explicitamente programados para cada tarefa, enquanto as redes neurais profundas imitam, de forma geral, o funcionamento do cérebro humano, processando informações em múltiplas camadas. Desde o lançamento do Chat-GPT em 2022, os modelos de linguagem (chatbots de IA generativa) tornaram-se uma referência comum nas discussões sobre IA fora dos círculos acadêmicos e especializados. Esses modelos foram treinados com quantidades massivas de texto para calcular qual sequência de caracteres tem maior probabilidade de seguir outra. Essa aparente inteligência não deriva de uma compreensão genuína da linguagem, mas sim do processamento de dados em larga escala.
Componentes técnicos e a dimensão política da IA
Dados, algoritmos e infraestrutura computacional são os pilares fundamentais dos sistemas nesta era. Sua concentração geográfica e os atores envolvidos em seu desenvolvimento determinam a assimetria de poder tecnológico que enfrentamos. Mas o que são cada um desses pilares?
Os dados (Big Data) são a matéria-prima do sistema, compostos por textos, imagens, gravações de áudio e de comportamento do usuário, em volumes massivos, necessárias para o seu treinamento.
Os algoritmos são estruturas matemáticas que ajudam as máquinas a processar dados e identificar padrões. Eles são usados em processos conhecidos como Aprendizado de Máquina e Aprendizado Profundo (baseado em redes neurais artificiais).
A infraestrutura computacional é essencial para o processamento de dados: modelos de hardware especializados, unidades de processamento gráfico (GPUs) e centros de dados com capacidades massivas. Segundo a UNCTAD, os Estados Unidos são responsáveis por 70% do investimento privado global em IA, com 67 bilhões de dólares em 2023. Em outubro de 2025, veículos de comunicação noticiaram que Amazon, Microsoft, Google e Meta iriam investir aproximadamente 350 bilhões de dólares neste ano em inteligência artificial. Grande parte desse montante seria destinada ao desenvolvimento de centros de dados que, devido às suas enormes necessidades de eletricidade e água, impõe a necessidade de estabelecer parcerias com concessionárias de energia elétrica para reforçar as redes locais.
A concentração dos componentes fundamentais da IA nas corporações do Norte Global nos ajuda a entender que ela não é neutra. As decisões epistemológicas de quem controla os componentes são codificadas e, consequentemente, geram vieses que perpetuam as hierarquias de raça, gênero e classe que organizam nossas sociedades. Quando um algoritmo de recrutamento discrimina mulheres, como foi o caso da Amazon, quando os sistemas de reconhecimento facial falham com mais frequência com pessoas negras e quando as plataformas algorítmicas tornam o trabalho de motoristas de entrega e mensageiros mais precário, não estamos diante de falhas técnicas, mas sim de decisões políticas codificadas, concebidas por corporações, que geram novas formas de dependência a cada dia. Para o Sul Global, isso significa uma nova forma de colonialismo tecnológico.
Países inteiros não controlam as infraestruturas digitais que atualmente permeiam sua economia e sociedade, enquanto dados são extraídos de nossas interações, nossos corpos e nossos territórios para alimentar sistemas projetados no Norte Global, que são então vendidos a nós como soluções para problemas que esses mesmos sistemas frequentemente agravam.
A desigualdade que isso gera é enorme. A própria Microsoft relata que, enquanto a adoção da IA atinge 23% no Norte Global, mal chega a 13% no Sul Global. A UNCTAD indica que as iniciativas globais para a governança da IA são impulsionadas principalmente pelos membros do G7, e a maioria dos países que fornecem serviços essenciais e recursos minerais para o funcionamento dos sistemas de IA não participa do processo de tomada de decisão.
As implicações para o Sul Global
Para as nossas comunidades, a IA apresenta tanto ameaças quanto oportunidades. As ameaças são concretas e se manifestam na automação que destrói empregos sem criar alternativas dignas, na expansão das tecnologias de monitoramento e controle, no aprofundamento da dependência tecnológica e na apropriação dos nossos dados como um novo recurso de acumulação. Além disso, os algoritmos reproduzem e amplificam formas históricas de discriminação.
Mas este cenário está mudando significativamente. Novos atores, como a China, um Estado soberano, estão desenvolvendo capacidades tecnológicas que oferecem alternativas ao modelo hegemônico das corporações dos Estados Unidos, propondo um modelo de governança baseado em IA que deve ser analisado como viável.
Desde 2017, a China está implementando uma estratégia abrangente de desenvolvimento de IA com metas claras de longo prazo. O Plano de Desenvolvimento de Inteligência Artificial de Nova Geração estabeleceu a meta de se tornar líder mundial até 2030, com uma característica distintiva que o diferencia de outros modelos: ele se concentra não apenas na competição tecnológica, mas também em orientar a IA para necessidades sociais concretas sob a supervisão do Estado.
Nas áreas de ética e segurança, essa abordagem inclui diversos elementos distintivos e a China desenvolveu estruturas regulatórias pioneiras. Os Princípios de Governança para uma Nova Geração de IA de 2019 estipulam que a IA deve ser segura, controlável e transparente, promovendo o bem comum. A Lei de Proteção de Informações Pessoais de 2021 regulamenta o processamento de dados com padrões comparáveis aos das regulamentações europeias, e a mais recente Estrutura de Governança de Segurança de IA de 2024 aborda tanto os riscos inerentes à tecnologia quanto seu uso malicioso.
As aplicações prioritárias revelam uma orientação para problemas sociais específicos, como o diagnóstico médico em áreas rurais com escassez de especialistas, a agricultura de precisão beneficiando camponeses, sistemas de alerta precoce protegendo a população de desastres naturais e educação personalizada buscando reduzir as desigualdades de acesso.
Este modelo levanta questões importantes para o Sul Global, que vão além da já conhecida interação com modelos de linguagem, a qual não representa o panorama completo no campo da IA. É possível desenvolver capacidades tecnológicas independentes sob a orientação do Estado? Podem os Estados recuperar a soberania sobre as infraestruturas digitais? O que significa colocar a tecnologia a serviço das necessidades do povo e não apenas da acumulação de capital?
Existem oportunidades para pular etapas nesse desenvolvimento por meio de estratégias soberanas. A chave está em quem controla essas tecnologias e para quais fins. Uma IA projetada para maximizar os lucros corporativos não é a mesma coisa que uma voltada para a solução de problemas de saúde pública, assim como um algoritmo que torna o trabalho precário não é o mesmo que um que o dignifica.
Desmistificando a IA: uma tarefa urgente por meio da pedagogia crítica.
Para nós, educadoras populares, isso nos leva ao ponto central desta reflexão: a necessidade de desenvolver uma pedagogia crítica da inteligência artificial. Essas ferramentas podem fortalecer a organização de base e democratizar o acesso ao conhecimento.
Isso significa, antes de mais nada, desmistificar a tecnologia. A IA não pensa. Como já dissemos, a IA processa padrões estatísticos. Em seu estado atual, ela não é autônoma; depende de trabalho humano em grande parte invisível, como é o caso de trabalhadores em países africanos e latino-americanos que realizam “trabalho fantasma” terceirizado e altamente precário. Uma investigação da revista TIME, publicada em 2023, revelou que a OpenAI pagou menos de 2 dólares por hora a trabalhadores do Quênia para filtrar conteúdo tóxico no ChatGPT. Com jornadas de nove horas, eles tinham que ler e rotular descrições gráficas de violência sexual, abuso infantil e tortura — trabalho que causou traumas psicológicos comprovados em vários deles.
A inteligência artificial não é mágica nem inevitável: ela é impulsionada por decisões humanas, interesses econômicos e dinâmicas de poder. Compreender como esses sistemas funcionam nos permite intervir nesse processo.
Em segundo lugar, precisamos desenvolver habilidades técnicas a partir de uma perspectiva crítica, pois não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de nos apropriarmos. Os movimentos sociais precisam entender como funcionam os algoritmos que nos afetam, como os modelos são treinados, quais dados utilizam e quais são suas limitações, para construir, disseminar e multiplicar alternativas no desenvolvimento tecnológico comunitário, com dados gerenciados coletivamente e algoritmos projetados com a participação popular.
Por fim, a pedagogia da IA deve ser profundamente política, porque a alfabetização digital não basta se não questionarmos as relações de poder que permeiam essas tecnologias, e não basta “incluir” os setores populares na economia digital se essa inclusão significar novas formas de exploração.
A inteligência artificial não é o futuro, é o presente que está sendo definido agora em um ritmo absolutamente acelerado.
Nós, que trabalhamos com educação popular, não podemos ficar à margem dessa definição e precisamos exigir regulamentações que protejam os direitos trabalhistas, os dados pessoais e a soberania nacional, ao mesmo tempo que promovemos o desenvolvimento de nossas próprias capacidades tecnológicas em nossos países. Formar pessoal técnico comprometido com causas populares e criar redes regionais entre nossas comunidades para aprender e compartilhar experiências alternativas faz parte desse caminho. A dimensão tecnológica não pode mais estar ausente de nossas análises e estratégias políticas, porque hoje é impossível vislumbrar a transformação social sem considerar o papel dessas ferramentas.
O conhecimento sobre IA não pode permanecer exclusivamente nas mãos da elite tecnológica. Se não o questionarmos, ficaremos sujeitos a decisões algorítmicas tomadas em escritórios no Norte Global. Se assumirmos a responsabilidade por esse conhecimento, podemos transformá-lo em mais uma ferramenta para construir o mundo que desejamos.
*Ivana Rojas é venezuelana. Luján Veiga é argentina. Ambas atuam com formação em inteligência artificial para movimentos sociais.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.



