Se, no século passado, as dietas da moda corriam de boca em boca, disseminando mitos e trazendo alguns prejuízos a quem se arriscava a segui-las, hoje, com a utilização das inteligências artificiais, novos equívocos têm surgido quando o assunto é alimentação.
Alguns desses deslizes podem vir de cardápios sugeridos nos chatbots – ou seja, plataformas como ChatGPT e Gemini, que, a partir de comandos, executam tarefas. Isso porque, ainda que tragam recomendações adequadas, o que vai depender das instruções recebidas, eles nem sempre acertam tudo. “Há o risco de desinformação, o que contribui para danos à saúde”, comenta a nutricionista Marle Alvarenga, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e idealizadora do Instituto Nutrição Comportamental.
Lançar mão dessas ferramentas sem o auxílio profissional favorece, por exemplo, a monotonia alimentar, a aposta em ingredientes “milagrosos” e até uma piora da relação com a comida.
Para a nutricionista, tecnologia boa é aquela que abre espaço para uma conversa e não a que substitui o encontro.
É preciso conhecer o estilo de vida do paciente, e todo o contexto, para montar um plano alimentar.
Marle Alvarenga, doutora pela Universidade de São Paulo (USP)
Marle, que acompanhou a evolução dos softwares criados para fins de dieta, enfatiza ainda que, para além de cálculos de porções e nutrientes, muitos outros fatores são considerados para a criação de um cardápio.
“Ao tentar agradar, a IA pode ser uma espécie de mentiroso convincente, utilizando o histórico de todas as pesquisas e interações, e oferecendo uma dieta que não será a mais indicada para aquela pessoa”, observa a nutricionista Renata Farrielo, especialista em nutrição comportamental e voluntária no Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim), do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.
Ao dar o prompt (isto é, o comando) para perder peso, por exemplo, as respostas costumam envolver o corte de calorias. “Se o emagrecimento ocorrer rapidamente, como resultado do grande déficit calórico, além da perda de massa muscular, tende a ser muito desafiador manter essa restrição em longo prazo”, afirma Renata.
Para funcionar, o processo necessita de análises minuciosas sobre o dia a dia do paciente, propondo, então, mudanças que propiciem hábitos saudáveis e duradouros.
O nutricionista Danilo Rodrigues, especialista em fisiologia do exercício pela USP, enfatiza que comida não é só um conjunto de nutrientes nem pode ser comparada ao combustível utilizado em um carro. “Tem papel social, afetivo, cultural”, aponta. “É preciso entender os porquês de uma pessoa consumir determinados alimentos e também o contrário, quais os motivos por trás da rejeição por certas comidas”, completa Silvia Ferrari, nutricionista clínica, especializada em comportamento alimentar.
Uma aliada no consultório
Embora o nutricionista tenha que desfazer confusões associadas ao mau uso dos chatbots em algumas ocasiões, a IA pode ser uma aliada no consultório. “É bem-vinda para organizar agendas, entre outras tarefas cotidianas”, sinaliza Marle. Contribui, em resumo, para a otimização do tempo.
Silvia utiliza para a decodificação da linguagem técnica. “Já usei para explicar ao paciente como uma via de sinalização bioquímica supercomplicada interfere com o tratamento”, exemplifica. Nesse caso, a IA criou uma ilustração que “traduziu” o conceito.
A junção das inovações tecnológicas com o refinamento do olhar humano pode resultar em um melhor atendimento e muitos ganhos à saúde.
Confira, a seguir, a avaliação de alguns pontos destacados de cardápios criados pelo ChatGPT. Vale dizer que os comandos foram simples, sem maiores detalhes sobre o perfil do indivíduo.
Emagrecimento
Aqui foi pedido um cardápio para perda de peso. Confira a sugestão de almoço:
- ½ prato: saladas (alface, tomate, cenoura, brócolis, pepino com um fio de azeite
- ¼ do prato: proteína (frango grelhado, peixe, carne magra ou ovo)
- ¼ do prato: carboidrato (arroz integral, batata-doce, mandioca ou quinoa)
- Evite refrigerante (prefira água)
Segundo Renata, a refeição foca muito nos nutrientes. “A IA fez uma orientação, usando nomenclaturas como proteínas e carboidratos, o que reforça a crença errada de que os alimentos se reduzem a um nutriente só”, aponta. Um exemplo é o arroz. “De fato é mais rico em carboidratos, mas ele também oferece proteínas”, comenta.
Renata também sentiu falta de diversos itens. “Não há menção ao macarrão, provavelmente por crenças gerais erradas de que não é possível emagrecer comendo massas”, opina.
Também não distinguiu os cortes de carnes ou tipos de peixes, que podem apresentar quantidades bem diferentes de gordura, entre outros aspectos. “E não especificou o modo de preparo, se é assado, cozido ou feito no vapor”, observa a nutricionista.
No cardápio criado, a sugestão para o jantar é a de um prato parecido com o do almoço, mas com menos carboidrato. Uma omelete ou ainda uma sopa de legumes com frango são opções. “Mas o que seria esse “menos?”, indaga Renata. Para ela está muito vago, o que passa uma ideia equivocada novamente.
Pique total
O comando, dessa vez, foi um cardápio para ter mais disposição. Abaixo o que veio de sugestão para o café da manhã:
- 1 copo de água ao acordar
- Ovos mexidos (2) ou omelete com legumes
- 1 fatia de pão integral ou 2 colheres de aveia
- 1 fruta (banana, maçã ou mamão)
- Café ou chá sem excesso de açúcar
Para Silvia Ferrari, a refeição parece adequada. “Está equilibrada”, diz. Mas a nutricionista afirma que é preciso ter bastante cuidado ao avaliar uma queixa sobre disposição. “Afinal, é uma sensação que vem de uma percepção muito subjetiva”, diz. Pode ter relação, sim, com a alimentação, porém diversos fatores interferem com a falta de pique. “Não dá para dizer que existe uma dieta, algum cardápio, com esse fim específico”, opina.
Entretanto, de modo geral, um indivíduo que come direito tende a se sentir mais disposto, ao contrário daquele que se alimenta mal.
Sobre a sugestão de lanche, no período matinal, que é uma fruta ou um punhado pequeno de castanhas, pode haver dúvidas sobre quantidade. Outra vez, tudo depende do perfil, tem quem precise de pouco volume, há aqueles que necessitam de uma porção maior.
Se a quantidade não for corretamente ajustada, corre-se o risco de chegar com muita fome na hora do almoço e exagerar na refeição, o que favorece a queda de energia na parte da tarde, exemplifica Silvia.
Almoço e jantar trazem opções como arroz, feijão, frango, salada ou legumes cozidos. Ainda que careça de detalhes, as refeições parecem corretas para uma pessoa saudável e que esteja buscando uma primeira referência de alimentação.
Como o comando foi muito genérico, sem aprofundamento do perfil, o resultado também carece de particularidades. “Em uma consulta, reunimos o máximo de informações sobre quem é o paciente, para individualização”, diz Silvia.
É primordial saber se há alguma condição especifica, caso de hipertensão, diabetes, doenças renal ou sobre o uso de alguma medicação. Até mesmo a constipação crônica pode impactar com a disposição, daí a necessidade de um olhar atencioso com o teor de fibras.
Por fim, Silvia elogia algumas dicas trazidas pelo chatGPT, colocadas ao final do cardápio, entre as quais a de hidratação e de dormir bem.
Musculatura em dia
O pedido ao ChatGPT foi de um cardápio para ganhar massa muscular. Aqui, vamos destacar as sugestões de pré-treino, para uma ou duas horas antes:
- Banana com aveia ou
- Pão integral e pasta de amendoim ou
- Tapioca com queijo branco
Entre as três opções, Rodrigues comenta que a combinação de pão integral com pasta de amendoim não está adequada para esse momento. “O pão é interessante porque é fonte de carboidrato, mas a pasta contém gordura que atrasa o esvaziamento gástrico, interferindo na liberação de energia para o treino”, ensina. Esse mecanismo pode atrapalhar o desempenho.
Já para o pós-treino, a recomendação vinda da IA é um shake de whey protein e há ainda uma opção de lanche da tarde que é um sanduíche integral com frango desfiado ou atum. “Aqui vale avaliar a rotina para definir se existe realmente a necessidade de duas fontes de proteína em horários tão próximos”, nota.
Inclusive, não é preciso ingerir whey protein 30 minutos após a atividade física. “Ele ajuda a atingir a meta proteica, mas pode ser consumido ao longo do dia”, ensina.
Rodrigues destaca quatro pilares para a hipertrofia muscular: sono, treino de força, alimentação e descanso.
E o cardápio deve ser individualizado, considerando sexo, altura, peso, rotina, avaliação da massa muscular, a intensidade dos treinos e ainda se o paciente faz outro tipo de atividade física além da musculação. “Só assim dá para estimar o gasto energético e adequar a distribuição de nutrientes”, comenta o especialista em fisiologia do exercício.
Em todas as refeições do cardápio criado, a proteína é enfatizada, mas cabe ressaltar que nem só de fontes proteicas o organismo precisa para o ganho muscular. “Também é fundamental priorizar bons fornecedores de carboidrato”, comenta.
Caprichar no consumo de frutas, legumes e verduras é mais um ponto importante. Isso porque eles oferecem vitaminas e saís minerais que atuam em prol do funcionamento do organismo.



