Em 2 de abril de 1986, professores protestaram contra o uso de calculadoras em salas de aula do ensino fundamental, durante a Reunião Anual do Conselho de Professores de Matemática, em Washington, nos Estados Unidos.
Contrários à recomendação do conselho de integrar a calculadora às tarefas escolares de matemática em todos os níveis — das lições de casa às avaliações —, os manifestantes argumentavam que o uso precoce da ferramenta ameaçaria o desenvolvimento do raciocínio lógico e do pensamento computacional. Como os estudantes já usavam calculadoras fora da escola, não faria sentido gastar tempo de aula ensinando algo que já dominavam. Além disso, ao estimular explicitamente seu uso, os alunos tenderiam a recorrer sempre ao atalho e deixariam de se engajar no esforço mais trabalhoso do cálculo manual.
Hoje, preocupações semelhantes emergem em relação à inteligência artificial (IA). Muitos professores receiam que a confiança excessiva nesses recursos leve à perda de atividades cognitivas essenciais: leitura ativa, análise comparativa, síntese, escrita e expressão própria. Pesquisas recentes investigam o impacto da IA no engajamento cognitivo, comportamental e emocional. Um experimento do MIT Media Lab mostrou que recorrer demais à IA em tarefas como redação pode reduzir a conectividade neural e a retenção de informações na memória de longo prazo, afetando negativamente a aprendizagem.
Especialistas acreditam ainda que o uso indiscriminado da IA pode levar à chamada preguiça cognitiva: preferência por atividades passivas em vez de leitura ou produção de textos, somada à falta de disposição para abstração, raciocínio lógico e criatividade. Essas hipóteses ainda carecem de evidências robustas, mas ajudam a explicar por que tantos docentes se preocupam. Ainda assim, mesmo que no futuro tais riscos se confirmem, seria realista proibir o uso da IA em escolas e universidades? A resposta parece óbvia: não. A aprendizagem é um processo que não pode ser controlado, ainda que possa ser mediado e avaliado.
Isso porque o aprendizado não depende apenas das experiências planejadas pela escola, mas também — e principalmente — das ações dos próprios estudantes. Professores, querendo ou não, os jovens recorrerão à IA sempre que julgarem útil. Esse uso inevitável reforça a ideia de que o papel da escola não pode ser o de impedir, mas o de orientar o estudante no modo como integra a tecnologia à sua trajetória de aprendizagem.
Assim como no caso da calculadora, crianças e jovens precisam aprender a usar as ferramentas do seu tempo. Cabe à escola prepará-los para empregar a IA de forma produtiva e ética, como apoio complementar — e não substituto — ao esforço cognitivo. Em cada etapa escolar, o aluno deve ser orientado a saber quando e como usar esses recursos para potencializar o aprendizado.
Isso implica repensar radicalmente o papel da escola e do professor. O docente deixa de ser transmissor de conteúdos e passa a atuar como mediador crítico: alguém que ensina a avaliar a qualidade da informação, a desconfiar de respostas prontas, a formular boas perguntas e a integrar o que a tecnologia oferece ao raciocínio próprio.
Já a escola deve ser vista como laboratório de pensamento: lugar de experimentação, colaboração e desenvolvimento de competências que nenhuma máquina substitui — criatividade, empatia, senso crítico, ética, capacidade de comunicação. Para isso, é preciso promover experiências significativas, nas quais os estudantes mobilizem conhecimento para enfrentar tarefas complexas.
Nesse sentido, estratégias pedagógicas ativas, como a aprendizagem baseada em problemas e projetos, ganham relevância. Além de favorecerem habilidades como pensamento crítico, autonomia e capacidade de integrar conhecimentos, essas práticas também ressoam junto à geração atual, que se engaja mais em propostas interativas e conectadas a situações concretas de sua vida.
O desafio da escola é integrar a IA ao processo educativo. Se conseguir articular seu uso com metodologias ativas e experiências formativas, poderá transformar a ameaça da preguiça cognitiva em oportunidade de formar cidadãos mais criativos, responsáveis e preparados para um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia.
Recentemente, repercutiu a notícia de uma escola nos Estados Unidos que teria “substituído” professores pela IA . Embora não se tratasse de eliminação completa da figura docente, o uso de chatbots como tutores levantou intenso debate: será esse o futuro da educação? A controvérsia revela o temor de que a IA possa ocupar o lugar dos professores. Não acredito que isso vá acontecer. Pelo contrário: na era da inteligência artificial, o papel do docente como mediador humano, orientador ético e inspirador de pensamento crítico torna-se ainda mais essencial.



